
“... A maioria de nós somos vítimas de nossas histórias psicossociais ou omissos diante da miséria do outro. Uma minoria é agente modificador da sua história, agente expansor do humanismo, da cidadania e dos direitos humanos derivados da democracia das idéias.
Temos que nos perguntar em que situação psicossocial estamos. Temos que nos perguntar se somos meros transeuntes existenciais, que passam pela vida sem criar raízes mais profundas dentro de si mesmos, ou se estamos nos interiorizando e expandindo nossa maturidade intelecto-emocional e aprimorando nosso humanismo e cidadania.
O conhecimento superficial da mente, bem como o empobrecimento do humanismo e da cidadania, não superam as barreiras da interpretação geradas pela comunicação mediada, pelo fenômeno da psicoadaptação e pela co-interferência de um conjunto de outras variáveis. Não é incomum que os governantes das nações mais ricas se adaptem psiquicamente diante da miséria das nações mais pobres e se tornem omissos sociopoliticamente, desculpando e camuflando suas omissões através da preocupação com seus problemas domésticos.
Se acharmos que o problema do outro é de responsabilidade apenas da sociedade e das instituições sociais em que ele está inserido, estamos negando o fantástico salto da memória instintivo-genética para a memória histórico-existencial que financia a construção de pensamentos e a formação da consciência existencial, capazes de nos levar a compreender que, independentemente das distâncias geográficas, culturais, raciais, políticas, somos uma única espécie.
O processo socioeducacional superficialista impede-nos de ter uma macrovisão psicossociofilosófica da espécie humana. Quem é que ouviu dos seus professores, na sua trajetória escolar, uma defesa “contínua” e “apaixonada” pela unidade da espécie humana, capaz de provocar uma conscientização sobre a perda do sentido psicossocial da espécie e sobre a necessidade vital de cooperação social intra-espécie; capaz de proclamar o espetáculo da construção multifocal dos pensamentos na mente de cada ser humano e de evidenciar a desinteligência e o desumanismo das discriminações? Provavelmente, nem ao menos ouvimos, ou pouco ouvimos, sobre a necessidade de aprender a nos colocarmos no lugar do outro e o analisarmos multifocalmente, para reconstruir interpretativamente, com menos distorções e mais adequação, suas dores e necessidades psicossociais. Provavelmente, até mesmo uma parte significativa dos estudantes de Psicologia e de especialização em Psiquiatria desconhecem as complexas distorções passíveis de ocorrer no processo de interpretação e, por isso, não são treinados psicossociofilosoficamente para aprender a reconstruir interpretativamente o “outro” e perceber suas dores e necessidades psicossociais, seus conflitos histórico-existenciais, a construção multifocal de seus pensamentos, sua dificuldade no gerenciamento dessa construção, etc.
Se temos graves falhas socioeducacionais na compreensão do “outro”, que dimensões não terão as falhas socioeducacionais que nos impedem de conquistar uma macrovisão intelectual da espécie humana? Nem ao menos percebemos que perdemos o sentido psicossocial de espécie. Temos um conhecimento superficial de que somos uma mesma espécie, mas “respiramos idéias” e “sentimos emoções” como se não fôssemos. Até entre vizinhos freqüentemente há muito mais do que um pequeno espaço físico que os separam; há também enormes barreiras psicossociais. Mesmo nas relações familiares, pais e filhos gastam horas e horas diariamente assistindo à TV ou navegando pela Internet, mas não gastam minutos sequer dialogando uns com os outros, explorando o mundo das idéias e das experiências.
O problema do homem deveria ser um problema da espécie humana, e o problema da espécie humana deveria ser um problema do homem. Não deveria haver intromissão na soberania sociopolítica, na cultura e nos direitos sociopolíticos de um cidadão em uma sociedade, mas deveria haver, na plenitude, uma cooperação humanística “intersociedades”, “intra-espécie”, na solução dos problemas biopsicossociais de cada sociedade.
Porém, infelizmente, apesar de conservarmos os laços genéticos, perdemos o sentido psicossocial de espécie, pois não compreendemos que o humanismo e a teoria da igualdade são decorrentes dos fenômenos que financiam a nossa capacidade de pensar e a nossa consciência existencial. Parafraseando o ex-presidente dos EUA, Abraham Lincoln, devemos nos perguntar o que podemos fazer pela nossa espécie e não o que a nossa espécie pode fazer por nós.
Devido à síndrome da exteriorização existencial, à interpretação inadequada do “outro” e à adaptação psíquica às misérias humanas, há uma tendência histórica de ocorrer violações dos direitos humanos irrigada com omissões sociopolíticas, o que compromete a viabilidade humanística da nossa espécie. Infelizmente, tem que haver nas sociedades modernas expressivas pressões sociopolíticas por parte da imprensa ou das ONGs (organizações não-governamentais) para que determinadas atitudes governamentais sejam tomadas, para que possa haver cooperação “intersociedade”. Parece que, sem a pressão sociopolítica, as sociedades, principalmente as mais ricas, perdem a macrovisão da espécie humana e se tornam insensíveis, adaptadas psiquicamente às misérias das nações mais pobres.
Como tenho dito, as sociedades humanas têm uma necessidade vital de políticos, empresários e líderes institucionais que tenham fome e sede de ser homens, apenas homens. Homens que não ambicionem ser supra-humanos, semideuses, que o mundo gravite em torno deles, mas homens que ambicionem ser homens, homens que elevem o padrão de sua humanidade. Homens que tenham uma macrovisão psicossociofilosófica da espécie humana e a valorize mais do que seu grupo social de interesse. Homens que valorizem mais o mundo das idéias do que a estética social. Homens que se preocupem menos em inscrever seus nomes nos anais da história e mais com a práxis da cidadania, do humanismo e da democracia das idéias; homens que não apenas percebam suas necessidades psicossociais, mas também que aprendam a perceber as necessidades de sua sociedade.
Cientificamente falando, a cadeia de distorções ligadas à interpretação do “outro”, impostas pela comunicação social mediada, pela insensibilidade intelecto-emocional decorrente do fenômeno da psicoadaptação, pelo sistema de cointerferências das variáveis da interpretação ocorrida nos processos de construção multifocal dos pensamentos, só pode ser superada e, ainda assim, parcialmente, se o homem compreender esses mecanismos distorcidos, se compreender determinados limites e o alcance dos pensamentos dialéticos; se aprender a se interiorizar, a se reciclar, a desenvolver a arte da dúvida e da crítica, e a gerenciar a construção multifocal de pensamentos com consciência crítica. A educação tradicional, por ser exteriorizante e “a-histórico-crítico-existencial”, é incapaz de desenvolver coletivamente essas funções nobres da inteligência multifocal, de formar engenheiros de idéias humanistas e pensadores que apreciem a democracia das idéias e tenham uma macrovisão da espécie humana. A educação que forma pensadores e engenheiros de idéias é aquela que estimula o processo de interiorização, o exercício da arte de pensar, a compreensão da formação da inteligência multifocal, a reciclagem da história intrapsíquica, a compreensão dos alicerces básicos do processo de interpretação, a arte de ouvir, o apreço pelo humanismo e pela democracia das idéias, etc.
Na vida social coloquial, ter a sensibilidade de aprender a se colocar no lugar do outro e perceber suas dores e necessidades psicossociais já é um grande avanço humanístico. Mas, infelizmente, acredito que a maioria das pessoas só tem sensibilidade para perceber suas próprias angústias, desejos e necessidades. O mundo do outro é quase imperceptível a elas; por isso, quando ouvem o outro elas compreendem apenas a semântica “seca” das palavras que ele profere, mas não os segredos que essas palavras expressam nas entrelinhas, e nem o que a expressão facial e o silêncio traduzem.
O mutismo social, expresso por falarmos muito do “mundo em que estamos”, mas falarmos pouco sobre o “mundo que somos”, revela o superficialismo das relações sociais que construímos. Podemos conviver durante décadas com pessoas e não conhecê-las intimamente, não penetrar em seus mundos intrapsíquicos e nem permitir que elas penetrem em nossos mundos. Numa sociedade mutista, o preconceituosismo satura as idéias e provoca um grande receio de se falar sobre o mundo que somos. Vivemos em sociedade, mas ilhados dentro de nós mesmos, como parceiros da solidão. Por isso, muitas pessoas se sentem sós, mesmo estando no meio de uma multidão, e muitas delas, como tenho dito, só conseguem se interiorizar e falar de si mesmas quando estão diante de um psiquiatra ou de um psicoterapeuta.
O psicoterapeuta, ao interpretar seus pacientes, pode se adaptar psiquicamente às suas misérias, fazendo da sua profissão apenas uma fonte de lucro, e produzir interpretações totalmente distorcidas, que dizem mais a respeito de si mesmo do que da personalidade dos seus pacientes. Os pais podem se adaptar psiquicamente às necessidades psicossociais dos seus filhos e não saber doar-se e trocar experiências com eles. Pais e filhos se tornam, assim, um grupo de estranhos vivendo dentro de uma mesma casa. Os professores podem se adaptar psíquica e superficialmente às imagens e aos comportamentos dos seus alunos e não perceber que, atrás de cada face, há um mundo a ser descoberto, um ser sofisticado que produz complexas cadeias de pensamentos e tem complexas necessidades psicossociais.” (Augusto Cury)
Temos que nos perguntar em que situação psicossocial estamos. Temos que nos perguntar se somos meros transeuntes existenciais, que passam pela vida sem criar raízes mais profundas dentro de si mesmos, ou se estamos nos interiorizando e expandindo nossa maturidade intelecto-emocional e aprimorando nosso humanismo e cidadania.
O conhecimento superficial da mente, bem como o empobrecimento do humanismo e da cidadania, não superam as barreiras da interpretação geradas pela comunicação mediada, pelo fenômeno da psicoadaptação e pela co-interferência de um conjunto de outras variáveis. Não é incomum que os governantes das nações mais ricas se adaptem psiquicamente diante da miséria das nações mais pobres e se tornem omissos sociopoliticamente, desculpando e camuflando suas omissões através da preocupação com seus problemas domésticos.
Se acharmos que o problema do outro é de responsabilidade apenas da sociedade e das instituições sociais em que ele está inserido, estamos negando o fantástico salto da memória instintivo-genética para a memória histórico-existencial que financia a construção de pensamentos e a formação da consciência existencial, capazes de nos levar a compreender que, independentemente das distâncias geográficas, culturais, raciais, políticas, somos uma única espécie.
O processo socioeducacional superficialista impede-nos de ter uma macrovisão psicossociofilosófica da espécie humana. Quem é que ouviu dos seus professores, na sua trajetória escolar, uma defesa “contínua” e “apaixonada” pela unidade da espécie humana, capaz de provocar uma conscientização sobre a perda do sentido psicossocial da espécie e sobre a necessidade vital de cooperação social intra-espécie; capaz de proclamar o espetáculo da construção multifocal dos pensamentos na mente de cada ser humano e de evidenciar a desinteligência e o desumanismo das discriminações? Provavelmente, nem ao menos ouvimos, ou pouco ouvimos, sobre a necessidade de aprender a nos colocarmos no lugar do outro e o analisarmos multifocalmente, para reconstruir interpretativamente, com menos distorções e mais adequação, suas dores e necessidades psicossociais. Provavelmente, até mesmo uma parte significativa dos estudantes de Psicologia e de especialização em Psiquiatria desconhecem as complexas distorções passíveis de ocorrer no processo de interpretação e, por isso, não são treinados psicossociofilosoficamente para aprender a reconstruir interpretativamente o “outro” e perceber suas dores e necessidades psicossociais, seus conflitos histórico-existenciais, a construção multifocal de seus pensamentos, sua dificuldade no gerenciamento dessa construção, etc.
Se temos graves falhas socioeducacionais na compreensão do “outro”, que dimensões não terão as falhas socioeducacionais que nos impedem de conquistar uma macrovisão intelectual da espécie humana? Nem ao menos percebemos que perdemos o sentido psicossocial de espécie. Temos um conhecimento superficial de que somos uma mesma espécie, mas “respiramos idéias” e “sentimos emoções” como se não fôssemos. Até entre vizinhos freqüentemente há muito mais do que um pequeno espaço físico que os separam; há também enormes barreiras psicossociais. Mesmo nas relações familiares, pais e filhos gastam horas e horas diariamente assistindo à TV ou navegando pela Internet, mas não gastam minutos sequer dialogando uns com os outros, explorando o mundo das idéias e das experiências.
O problema do homem deveria ser um problema da espécie humana, e o problema da espécie humana deveria ser um problema do homem. Não deveria haver intromissão na soberania sociopolítica, na cultura e nos direitos sociopolíticos de um cidadão em uma sociedade, mas deveria haver, na plenitude, uma cooperação humanística “intersociedades”, “intra-espécie”, na solução dos problemas biopsicossociais de cada sociedade.
Porém, infelizmente, apesar de conservarmos os laços genéticos, perdemos o sentido psicossocial de espécie, pois não compreendemos que o humanismo e a teoria da igualdade são decorrentes dos fenômenos que financiam a nossa capacidade de pensar e a nossa consciência existencial. Parafraseando o ex-presidente dos EUA, Abraham Lincoln, devemos nos perguntar o que podemos fazer pela nossa espécie e não o que a nossa espécie pode fazer por nós.
Devido à síndrome da exteriorização existencial, à interpretação inadequada do “outro” e à adaptação psíquica às misérias humanas, há uma tendência histórica de ocorrer violações dos direitos humanos irrigada com omissões sociopolíticas, o que compromete a viabilidade humanística da nossa espécie. Infelizmente, tem que haver nas sociedades modernas expressivas pressões sociopolíticas por parte da imprensa ou das ONGs (organizações não-governamentais) para que determinadas atitudes governamentais sejam tomadas, para que possa haver cooperação “intersociedade”. Parece que, sem a pressão sociopolítica, as sociedades, principalmente as mais ricas, perdem a macrovisão da espécie humana e se tornam insensíveis, adaptadas psiquicamente às misérias das nações mais pobres.
Como tenho dito, as sociedades humanas têm uma necessidade vital de políticos, empresários e líderes institucionais que tenham fome e sede de ser homens, apenas homens. Homens que não ambicionem ser supra-humanos, semideuses, que o mundo gravite em torno deles, mas homens que ambicionem ser homens, homens que elevem o padrão de sua humanidade. Homens que tenham uma macrovisão psicossociofilosófica da espécie humana e a valorize mais do que seu grupo social de interesse. Homens que valorizem mais o mundo das idéias do que a estética social. Homens que se preocupem menos em inscrever seus nomes nos anais da história e mais com a práxis da cidadania, do humanismo e da democracia das idéias; homens que não apenas percebam suas necessidades psicossociais, mas também que aprendam a perceber as necessidades de sua sociedade.
Cientificamente falando, a cadeia de distorções ligadas à interpretação do “outro”, impostas pela comunicação social mediada, pela insensibilidade intelecto-emocional decorrente do fenômeno da psicoadaptação, pelo sistema de cointerferências das variáveis da interpretação ocorrida nos processos de construção multifocal dos pensamentos, só pode ser superada e, ainda assim, parcialmente, se o homem compreender esses mecanismos distorcidos, se compreender determinados limites e o alcance dos pensamentos dialéticos; se aprender a se interiorizar, a se reciclar, a desenvolver a arte da dúvida e da crítica, e a gerenciar a construção multifocal de pensamentos com consciência crítica. A educação tradicional, por ser exteriorizante e “a-histórico-crítico-existencial”, é incapaz de desenvolver coletivamente essas funções nobres da inteligência multifocal, de formar engenheiros de idéias humanistas e pensadores que apreciem a democracia das idéias e tenham uma macrovisão da espécie humana. A educação que forma pensadores e engenheiros de idéias é aquela que estimula o processo de interiorização, o exercício da arte de pensar, a compreensão da formação da inteligência multifocal, a reciclagem da história intrapsíquica, a compreensão dos alicerces básicos do processo de interpretação, a arte de ouvir, o apreço pelo humanismo e pela democracia das idéias, etc.
Na vida social coloquial, ter a sensibilidade de aprender a se colocar no lugar do outro e perceber suas dores e necessidades psicossociais já é um grande avanço humanístico. Mas, infelizmente, acredito que a maioria das pessoas só tem sensibilidade para perceber suas próprias angústias, desejos e necessidades. O mundo do outro é quase imperceptível a elas; por isso, quando ouvem o outro elas compreendem apenas a semântica “seca” das palavras que ele profere, mas não os segredos que essas palavras expressam nas entrelinhas, e nem o que a expressão facial e o silêncio traduzem.
O mutismo social, expresso por falarmos muito do “mundo em que estamos”, mas falarmos pouco sobre o “mundo que somos”, revela o superficialismo das relações sociais que construímos. Podemos conviver durante décadas com pessoas e não conhecê-las intimamente, não penetrar em seus mundos intrapsíquicos e nem permitir que elas penetrem em nossos mundos. Numa sociedade mutista, o preconceituosismo satura as idéias e provoca um grande receio de se falar sobre o mundo que somos. Vivemos em sociedade, mas ilhados dentro de nós mesmos, como parceiros da solidão. Por isso, muitas pessoas se sentem sós, mesmo estando no meio de uma multidão, e muitas delas, como tenho dito, só conseguem se interiorizar e falar de si mesmas quando estão diante de um psiquiatra ou de um psicoterapeuta.
O psicoterapeuta, ao interpretar seus pacientes, pode se adaptar psiquicamente às suas misérias, fazendo da sua profissão apenas uma fonte de lucro, e produzir interpretações totalmente distorcidas, que dizem mais a respeito de si mesmo do que da personalidade dos seus pacientes. Os pais podem se adaptar psiquicamente às necessidades psicossociais dos seus filhos e não saber doar-se e trocar experiências com eles. Pais e filhos se tornam, assim, um grupo de estranhos vivendo dentro de uma mesma casa. Os professores podem se adaptar psíquica e superficialmente às imagens e aos comportamentos dos seus alunos e não perceber que, atrás de cada face, há um mundo a ser descoberto, um ser sofisticado que produz complexas cadeias de pensamentos e tem complexas necessidades psicossociais.” (Augusto Cury)
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