Como nos ensina o Barão de Itararé, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo - e o Senado Federal, hoje em dia, é um dos últimos locais do Brasil de onde se pode esperar que saia alguma coisa decente. Não poderia mesmo ser de outro jeito quando se considera que um terço de todos os parlamentares brasileiros, somando-se o Senado e a Câmara dos Deputados, está sendo processado no momento por algum tipo de delito - o que provavelmente faz do Congresso Nacional, logo após as penitenciárias, o espaço do território nacional onde se concentra em termos proporcionais o maior número de indivíduos enrolados com a Justiça. A decisão que abençoou a impunidade de Calheiros, na verdade, faz parte de um tipo de situação que as leis penais definem como "crime continuado". Ela desemboca numa constatação básica. Se alguém disser que o Senado brasileiro é controlado hoje por 46 escroques, sendo seis deles particularmente perigosos - os que se esconderam atrás da "abstenção" em seus votos -, a lógica comum tende a lhe dar razão. É possível que os senadores encontrem um argumento qualquer para considerar a acusação um tanto exagerada. Possível sempre é, mas vai ser difícil.Para além de Renan e dos 46 senadores que o salvaram, é que nenhum negócio cresce mais no Brasil de hoje do que a indústria da impunidade para políticos do governo e seus sócios em outros partidos - além, naturalmente, dos malfeitores que os patrocinam, freqüentemente os remuneram e se beneficiam de suas decisões. O caso específico do presidente do Senado mostra, sem dúvida, que a força desse negócio chegou ao ponto de lhe permitir a criação de uma espécie de nova lei, segundo a qual nenhuma prova será suficiente para demonstrar a culpa de nenhum homem público protegido pelo governo.
Já se roubou muito "neste país" antes do presente governo, sem dúvida, e não foi o PT quem inventou a moda. Mas o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é provavelmente o primeiro que tomou, de uma forma deliberada e consciente, a decisão política e estratégica de jogar todas as suas fichas no apoio à corrupção e na defesa da impunidade para os que se envolvem em problemas com o Código Penal, desde que façam parte de seus quadros ou sejam aliados. Considera que essa é a forma mais eficaz, com os políticos que o Brasil tem, de governar e manter sua capacidade de mandar - ou de assegurar a "governabilidade", como se costuma dizer. No presente caso, o governo entrou com tudo, e exatamente na mesma linha de sempre, que começou com Waldomiro Diniz e veio acabar nos bois e laranjas de Renan. Formaram a tropa de choque para salvá-lo, desde o primeiro instante, o próprio presidente da República, ministros com empregos a oferecer, os líderes petistas Aloizio Mercadante, do qual não se ouvia falar desde o episódio dos "aloprados", e Ideli Salvatti, que propunha nada menos que uma absolvição unânime para Renan - e o PT como um todo, nas suas atuais funções de capitão-do-mato a serviço do estilo de vida pública que sempre prometeu combater.

De mais a mais, episódios como o de Renan tendem a se diluir com o tempo. Napoleão, num de seus momentos de pragmatismo em estado bruto, disse que os delitos cometidos coletivamente sempre são esquecidos com mais facilidade. Eis aí algo que o atual governo aprendeu com perfeição. (Baseado em matéria do jornalista J.R.Guzzo)
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