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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Relógio de repetição


Relógio de repetição, aquele cujo maquinismo é próprio para repetir as horas. (Também se diz, por ironia, das pessoas que se limitam a repetir o que dizem os outros.)
Vocês já repararam como há pessoas cujos comentários de hoje estão sempre baseados no noticiário da TV de ontem e cujas opiniões nunca são pessoais e sempre consequência das afirmativas alheias, geralmente um entrevistador ou qualquer figura midiática que se aproveita da popularidade para confundir os telespectadores e ouvintes? O que mais se vê por aí. Louras famosas passando-se por mestras de auto-ajuda ou apresentadores que surgem como arautos da verdade e do bem, numa mediocridade de assustar.
E que faz muito mal porque manipula os que se recusam a pensar por si ou que são fracos o suficiente para receber a influência desses aproveitadores, muitos chamados de “carismáticos” (fico trêmulo ao ouvir a palavra, tão mal empregada) ou “iluminados”. Em política, então, é o que mais acontece.
É lamentável porque torna tantos e tantos títeres sociais ou figuras sem identidade, conduzidas pelos marqueteiros de plantão. Só conseguimos nos encontrar com a nossa identificação quando sabemos organizar nossas ideias, de forma a confrontá-las com as propostas externas, ao invés de abafá-las pela velada imposição dos outros.
Essa é a saudável adequação ou a necessária adaptação, e não quando deixamos as influências formarem um falso pensamento em nós, um bloco de princípios e conceitos que não são nossos. É o que forma a capacidade de análise, síntese e dedução. De depurar as informações, o que realmente acrescenta, ilustra.
E com isso reforçar o querer, uma das maiores forças do ser humano. O biólogo inglês Ian Willmut (O homem que espantou o mundo em 1996 com o nascimento do primeiro mamífero clonado (a ovelha Dolly) a partir de uma célula adulta), em seu livro A segunda criação proclama o reforço do querer por si e não pela pressão externa. Ele mostra que as células sempre querem e nada é melhor para o organismo do que a determinação.
Mas, para se organizar essa benção que são as nossas ideias, é preciso um treinamento da capacidade de escolher, atentos ao que sentimos antes, durante e depois de cada escolha, afiando o ouvido para escutar a voz do coração.
Enquanto só repetimos ou aceitamos influências, nos tornamos mesmo relógios de repetição. E os outros fazem de nós o que quiserem. Triste, não?
(baseado em crônica de Luiz Gonzaga Alca de Sant’Anna)

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