
Parece que foi ontem que o mundo foi tomado de assalto por uma doença que se revelava uma ameaça à raça humana. Era um mal atípico, parecia atacar grupos como gays, usuários de drogas, prostitutas e hemofílicos. O último foi considerado vítima da AIDS enquanto os demais foram taxados como sua causa. Peste gay, doença de drogados, todo tipo de agressão represada passou a ser veiculada em todas as mídias, em todas as religiões. Como todo preconceito, acabou se voltando contra seus protagonistas e vimos aumentar o número de casos entre religiosos, casais heterossexuais, idosos, jovens e recrudesce entre gays, num moto contínuo macabro. A epidemia de AIDS tornou-se uma doença com a cara do Brasil: atinge em cheio pessoas sob as mais diversas vulnerabilidades sociais, como pobreza, falta de acesso a informações e ao próprio sistema público de saúde (Estima-se que 630 mil pessoas vivam com o vírus no País).
Parece que foi ontem que surgiu o coquetel que alterou completamente os rumos da epidemia, proporcionando às pessoas que vivem com HIV novas expectativas na vida, devolvendo o poder de planejar e realizar sonhos. Sonhos que foram sendo ameaçados pelos efeitos colaterais dos medicamentos, pois parece que foi ontem que eles eram apenas indisposições gastrintestinais. Hoje estudos demonstram que as mortes por AIDS foram reduzidas, mas os efeitos colaterais agora são fatais e vão desde doenças cardiovasculares a cânceres e estão matando mais que a própria doença. A velha história de estar entre o fogo e a frigideira. Não há como negar que o coquetel anti HIV é uma das maiores conquistas da ciência, mas uma vez mais a lentidão com que o governo e o movimento social tratam essa questão, deixa um rastro de mortes invisíveis, que não entram em nenhuma estatística oficial.
Parece que foi ontem que pessoas com HIV simulavam suas mortes na Avenida Paulista pois, parafraseando o Betinho da luta contra a fome, quem tem AIDS Tem pressa. Só havia duas alternativas: ou a pessoa se entregava à situação ou ia à luta pelo direito mais elementar, que é o direito à vida. ONGs e redes de direitos foram criadas e se articularam para exigir a atenção e o respeito merecidos. Uma das maiores conquistas foi o acesso aos remédios via SUS (Sistema Único de Saúde) que apesar dos revezes, é o que viabiliza o combate à epidemia no Brasil. Outra alternativa das às pessoas com HIV: sumir no anonimato. Sua vida estava garantida, seu emprego sempre em risco e o que os vizinhos iriam pensar? As instituições começaram a se ressentir da falta de novos ativistas enquanto os antigos passaram a adoecer ou a se corromper pelos vícios da perenidade de suas representações.
Parece que foi ontem que a AIDS trazia consigo o sentimento de urgência por parte da ciência, dos governos e da sociedade. Mas nesses trinta anos o HIV nos mostrou qual é sua principal arma: a mutação. A mutação genética que o torna resistente ao coquetel e provoca sérias consequências na assistência e na prevenção. A mutação científica, pois foi erroneamente considerada uma “doença crônica” e a indústria farmacêutica vibrou com as perspectivas de lucro farto. Faz também com que governos negligenciem verbas destinadas ao combate à AIDS, assim como faz com que as pessoas voltem a encarar o preservativo como aquela borracha sem gosto e sem necessidade.
Parece que foi ontem, mas hoje ainda temos muitas mortes, sequelas e a terrível sensação de que o vírus sabe mais das fragilidades humanas do que nós sobre as dele. E que, apesar do senso comum de que controlamos a doença, quem continua dando as cartas é ela.
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