No meio do Atlântico, George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, recebidos pelo primeiro-ministro português de então, Durão Barroso, reuniram-se, na tarde de 16 de Março de 2003, naquela que também ficou conhecida como a Cimeira das Lajes, que culminou, 4 dias depois, na madrugada de 20 do mesmo mês, com o início da intervenção militar no Iraque.Desencadeada por uma coligação militar internacional, liderada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, e apoiada por Portugal e Espanha, entre outros países, a operação conduziu à ocupação militar do Iraque, que se mantém, e ao derrube do regime do ditador Saddam Hussein, que viria a ser capturado e morto, por enforcamento, depois de julgado e condenado à pena capital por um tribunal iraquiano.
De 80 mil a 655 mil (dependendo da estatística) civis iraquianos mortos, 4 mil soldados americanos com o mesmo fim e cerca de 4 milhões de refugiados. Constante tensão entre palestinos e israelenses, fortalecimento de grupos terroristas e a consolidação do Irã como uma nova força política e militar no Oriente Médio. Este é o convulsivo quadro dessa região do planeta após cinco anos de invasão e posterior ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e seus aliados.
Na semana passada, o presidente americano George Bush, em “comemoração” à data, fez uma defesa enfática da grande obra de seu governo, esta famigerada guerra. Durante discurso no Pentágono, ele disse que os EUA têm sido muito bem-sucedidos no conflito, tanto no combate a Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda ainda não capturado, como na derrubada do ditador Saddam Hussein. Bush alegou que as mortes dos militares americanos são parte de um “preço alto”, mas ”necessário” e alfinetou os candidatos democratas. Conforme o presidente, a promessa deles de retirada acelerada das tropas após as eleições tem sido justificada pelo alto custo – de US$ 1 trilhão a US$ 3 trilhões – e não pela violência, que está em queda.
A conclusão que se pode tirar é que Bush meteu os EUA numa enrascada impressionante. Além das perdas de vidas das duas nações, a guerra exigiu um esforço material que colaborou para a expansão do déficit astronômico americano. Esgotado politicamente pelos percalços do belicismo, o presidente agora não consegue centrar seu foco na crise que varre os setores financeiro e imobiliário de Nova Iorque à Califórnia. Internacionalmente, o fiasco é total. Enquanto o ataque de 11 de setembro trouxe solidariedade aos EUA e aprovação à derrubada da milícia Taleban do poder no Afeganistão, o início das ações em 20 de março de 2003 (dia 19 no Brasil), que contou com um expressivo apoio dentro dos Estados Unidos, se esvaiu nos anos seguintes.
A presença americana naquele ponto da Ásia aprofundou o previsível conflito entre sunitas e xiitas antes unidos à força ditatorial e atraiu o terror da Al-Qaeda e outros grupos assemelhados, que encontraram terreno ideologicamente e religiosamente fértil para levantes contra as tropas invasoras. Justificativas falsas ou incomprovadas de arsenal de armas químicas e ligação com a Al-Qaeda colaboraram para minar o apoio do eleitorado dos EUA à operação no Iraque, que hoje é estimado em apenas um terço. Além disso, nesse período o Irã ganhou importância na região, tornando-se um aliado do Hezbollah, grupo terrorista que desestabilizou o Líbano. Portanto, está mais do que provado que as estratégias do ataque preventivo e do unilateralismo não passam de erros do conservadorismo bushista que, espera-se, sejam enterrados pelo próximo governo, pois o atual não tem mais salvação.