
O rapaz mantém a ex-namorada refém por 100 horas, depois mata-a com um tiro na cabeça; o pai joga a filha de 5 anos pela janela, do sexto andar do prédio; homens entram em uma casa, com a missão de assassinar um desafeto mas, como este consegue fugir, matam sua mulher grávida de 8 meses e a filha, de 4 anos. Tais ocorrências, como tantas outras que pipocam por este País afora, são trágicas, lamentáveis, mas, por mais cruel que seja dizer isso, não surpreendem. Pela simples razão de que apenas refletem um acentuado retrocesso intelectual e espiritual do ser humano, principalmente nas últimas quatro décadas.
Qual a diferença entre um homem das cavernas, armado de tacape, coberto de peles, perambulando por seu habitat, comunicando-se por grunhidos e sinais de fumaça, de um soldado do tráfico de drogas, circulando pela favela, de bermudas, chinelos de dedo e sem camisa, rifle em punho, comunicando-se por gírias e monossílabos, à falta de um vocabulário maior? O que distingue o ritual tribal de mil anos atrás, em uma aldeia da África, em que selvagens desnudos movimentam-se histericamente ao som de tantans, de um baile funk, onde homens e mulheres, igualmente semi-vestidos, alucinam-se ao som de tuntuns expelidos por potentes caixas acústicas? O que difere um grupo de visigodos da Idade Antiga, lançando-se sobre uma aldeia, de espadas e lanças em riste – não importando se serão trucidados pelos defensores, desde que matem o maior número possível de inimigos – dos homens-bomba que se explodem no meio de uma feira livre, com o mesmo objetivo?
O diferencial está apenas na tecnologia empregada, afinal tacapes não são fuzis, tampouco espadas são granadas. Mas a finalidade é a mesma: garantir, pela brutalidade, a sobrevivência, o território e a satisfação de instintos primitivos.
Enumerar as muitas causas de tudo isso seria difícil e enfadonho. Mas a verdade é que o ser humano tem, nas últimas décadas, livrado-se gradativamente de todas as conquistas espirituais que o levaram a afastar-se da barbárie, entre elas a resolução de conflitos por meio de negociações diplomáticas e tribunais; a disciplina dos sons, transformando-os em música; dos sinais, tornando-os letras, palavras e livros. O pior de tudo é que voltamos às cavernas munidos de fuzis AR e mísseis nucleares. Somos macacos em lojas de cristais, mas, agora, de martelos nas mãos.
Qual a diferença entre um homem das cavernas, armado de tacape, coberto de peles, perambulando por seu habitat, comunicando-se por grunhidos e sinais de fumaça, de um soldado do tráfico de drogas, circulando pela favela, de bermudas, chinelos de dedo e sem camisa, rifle em punho, comunicando-se por gírias e monossílabos, à falta de um vocabulário maior? O que distingue o ritual tribal de mil anos atrás, em uma aldeia da África, em que selvagens desnudos movimentam-se histericamente ao som de tantans, de um baile funk, onde homens e mulheres, igualmente semi-vestidos, alucinam-se ao som de tuntuns expelidos por potentes caixas acústicas? O que difere um grupo de visigodos da Idade Antiga, lançando-se sobre uma aldeia, de espadas e lanças em riste – não importando se serão trucidados pelos defensores, desde que matem o maior número possível de inimigos – dos homens-bomba que se explodem no meio de uma feira livre, com o mesmo objetivo?
O diferencial está apenas na tecnologia empregada, afinal tacapes não são fuzis, tampouco espadas são granadas. Mas a finalidade é a mesma: garantir, pela brutalidade, a sobrevivência, o território e a satisfação de instintos primitivos.
Enumerar as muitas causas de tudo isso seria difícil e enfadonho. Mas a verdade é que o ser humano tem, nas últimas décadas, livrado-se gradativamente de todas as conquistas espirituais que o levaram a afastar-se da barbárie, entre elas a resolução de conflitos por meio de negociações diplomáticas e tribunais; a disciplina dos sons, transformando-os em música; dos sinais, tornando-os letras, palavras e livros. O pior de tudo é que voltamos às cavernas munidos de fuzis AR e mísseis nucleares. Somos macacos em lojas de cristais, mas, agora, de martelos nas mãos.
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