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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Mentiras e bondades (Alcindo Gonçalves)


O Mentiroso é um filme que é exibido toda hora na televisão. Conta a história de um advogado, vivido por Jim Carrey, cujo filho, cansado das trapalhadas do pai, faz com que um sortilégio tenha efeito sobre ele: ficar alguns dias sem contar nenhuma mentira. Não sou grande fã do careteiro Carrey, mas reconheço que a idéia do filme é ótima e ele tem alguns momentos muito divertidos, especialmente aqueles em que o protagonista se vê em palpos-de-aranha nos tribunais, já que não pode, em hipótese alguma, mentir e enganar.
Ninguém vai dizer que mentir é uma coisa boa. Ao contrário, pais e educadores irão sempre buscar ensinar às crianças os riscos e malefícios da mentira. Mas todos sabem que é impossível dizer a verdade sempre, em todos os momentos. Ai daquele que disser tudo que lhe vem à cabeça ou do fundo do coração. Ou agir de forma aberta, sem dissimular, omitir ou esconder o que pensa ou faz.
Há atividades humanas em que isso é absolutamente impossível, como, por exemplo, no comércio. Quem pode vender ou negociar sem esconder custos, margens de lucros? Mesmo a sagrada arte da sedução, cantada em prosa e verso, exige dissimulação, técnicas de indiferença fingida, e mesmo histórias e declarações muitas vezes exageradas e falsas.
Ou seja: para que se viva em sociedade é indispensável uma boa dose de inverdades. Ninguém suportaria viver num ambiente em que todos falassem a verdade, nua e crua, a propósito de tudo. Isso seria tão insuportável quanto cruel. As pessoas seriam humilhadas a todo instante, e a vida se tornaria um inferno.
Assim sendo, as mentiras bondosas e educadas se justificam. Às vezes não se trata de mentir, e sim de omitir. Evitamos emitir nossas opiniões e juízos de valor sobre as pessoas e situações em prol da boa convivência. A boa educação, enfim, exige que pensemos antes de falar alguma coisa a alguém.
Mas há um certo exagero nisso. Refiro-me a uma novidade dos tempos modernos: a moda das palavras politicamente corretas. Hoje em dia não se pode dizer que alguém é negro, preto ou “de cor”: a expressão é afrodescendente. Da mesma forma, as prostitutas devem ser tratadas como “trabalhadoras do sexo”. Aidético nem pensar – o correto é portador do vírus HIV – e não existem mais cegos, surdos ou mudos, e sim pessoas portadoras de necessidades especiais. Empregada doméstica é um insulto, substituída por secretária, ou algo parecido. E não há mais funcionários ou empregados numa empresa: todos são “colaboradores”.
Talvez a motivação dessa tendência de palavras ou expressões suaves seja correta, buscando combater preconceitos ou abusos históricos. Mas tenho cá as minhas dúvidas se usá-las significa, de fato, abolir tais atitudes reprováveis. Temo que, na maioria dos casos, nada mude: altera-se o tratamento sem que isso se traduza em abolição do desprezo ou indiferença aos grupos e minorias, sempre discriminados.
Em resumo: saibamos usar e empregar as mentiras bondosas visando a melhor convivência possível, a harmonia, a paz, mas sem exageros ou falsidades. O importante é ser tolerante, paciente e compreensivo com os outros, dosando o que se fala e afirma. Ser verdadeiro demais acaba por ser agressivo e mal-educado, mas abusar dos eufemismos das expressões é só um verniz bobo, sem nenhum conteúdo.

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