
Nesta semana li um e-mail que relata, em minúcias, a morte física de Jesus, condenado à mais cruel de todas as execuções da época: a crucificação. A mensagem tem tom religioso-espiritual, mas não nos poupa de nenhum detalhe, ao descrever as conseqüências e reações do corpo jovem de Cristo às atrocidades contra Ele cometidas.
O suficiente para nos horrorizarmos com a crueldade a que podiam chegar os contemporâneos de Jesus. E vem a pergunta: como puderam fazer isso a quem só falava de amor, perdão e paz? Que razões políticas, que humanidade hipócrita insuflou e permitiu isso? E logo desfilam em nossas mentes outros lugares, épocas e personagens vivendo horrores impostos por seus semelhantes.
Há a mulher apedrejada até a morte pelos talibãs, em meio a um estádio de futebol lotado, em uma das mais pungentes cenas do filme O Caçador de Pipas. Condenada pelos igualmente hipócritas detentores do poder, estes sim, capazes de atitudes vis e repugnantes.
Por associação de idéias, retornamos aos anos depois de Cristo, quando cristãos eram jogados aos leões nas arenas, para diversão do populacho e por ordem dos que detinham autoridade e nenhum resquício de humanidade. E há as memórias das fogueiras medievais, das mulheres sacrificadas e apontadas como origem de todo o “pecado” na maioria das religiões formais, das guerras santas originadas dos mais abjetos interesses, das torturas e cruéis execuções ao longo dos séculos, desde muito antes da era cristã.
Escravidão de raças e povos, genocídios, um infindável desfilar de horrores. Como era cruel a humanidade! Ou, como ainda é cruel a humanidade em terras e civilizações distantes. Será? Não seremos nós também cruéis, hoje, aqui, agora? O que dizer do menino arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro, preso ao cinto de segurança de um carro? E da família queimada viva dentro de outro carro? Das pessoas envoltas pelas chamas dentro de pilhas de pneus velhos?
São tantos e tão perversos os requintes da violência! Idosos, crianças, mulheres, homens. Todos expostos à ação de auto-investidos carrascos, gente que, como os tristes exemplos da História, encara vidas humanas como moeda de troca ou como lixo.
Não só aqui, e não apenas ações de bandidos. Continuamos convivendo, em todo o mundo, com a violência das guerras, do terror, da ganância, da miséria. Pouco evoluímos. Mas, talvez, se esquecermos nossa própria hipocrisia e nos posicionarmos com coragem, possamos acender uma luz no fim do túnel.
Se deixarmos de discriminar, se controlarmos nossa violência nas banalidades do cotidiano, se estivermos atentos a nossos filhos e alunos para que não sejam alimento de cruéis e amorais traficantes, se nos esquecermos do inútil voto de protesto, se exigirmos o melhor dos governantes, se valorizarmos o conhecimento e a cultura, se soubermos impor limites aos jovens. Se, se, se...
São muitas as atitudes a serem tomadas. Por mínimas que sejam, farão com que tenha valido a pena a vinda de Cristo, com sua mensagem de mansidão e amor. E, certamente, nos afastarão do grupo de seguidores de Pôncio Pilatos. (Baseado em texto de Ana Maria Sachetto – Jornal A Tribuna de 21/03/2008)