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sábado, 4 de outubro de 2008

Pai, uma missão sem fim (Dado Moura)

A missão confiada aos pais não é assegurada somente quando nossos filhos são apenas crianças. Precisamos ser bons mestres tanto nos ensinamentos como em atitudes, e isso não cabe a nenhuma escola. Muitas vezes, o acúmulo de coisas e outras preocupações pertinentes aos genitores fazem passar despercebido o fato de que a formação do caráter dos filhos depende deles.
Numa casa, nos finais de semana, sempre há muitas coisas para ser resolvidas; outras para ser consertadas, entre outros. E quase sempre, na tagarelice de criança, estará o filho rodeando o pai simplesmente para estar junto dele, ou para
espalhar suas ferramentas. O filho – sem ter conhecimento - dispõe ao pai uma oportunidade de fortalecer vínculos e de fazer de uma simples tarefa doméstica uma experiência inesquecível para ambos; mesmo quando ele [o filho] inventa brincadeiras no mesmo local onde o pai está trabalhando.São esses momentos que propiciam maior intimidade entre pais e filhos, por mais breve que sejam eles. Certamente, em pouco tempo, já não estarão mais interessados em ajudar a apoiar uma escada, nem a lavar o carro ou arrumar uma antena…
Nossas crianças não crescem já conhecendo sobre o que é certo e errado, tampouco têm idéia sobre a necessidade de se esperar o momento adequado para ganhar o presente que desejam ou ainda fazer aquilo que bem entendem como se o mundo girasse ao redor delas. Por outro lado, a missão de pai não termina com a chegada da juventude do filho. Rapidamente outras atividades vão tomar parte da vida de nossos jovens e não permanecerão eternamente sob as sombras dos
pais. Dentre as novas ocupações, também vão estar o “compromisso” de responder e-mails, atualizar seus contatos em sites de relacionamentos, entre outras coisas.
Lembro-me de que na minha adolescência, pouco a pouco, fui estimulado a buscar trabalho, me fazendo assim conquistar o próprio dinheiro. Isso me permitiu experimentar a sensação de alcançar a minha “independência financeira” e de aprender como controlar meus próprios gastos. A sensação de ser dono do “próprio nariz”, ainda que não tivesse maturidade suficiente para enfrentar as próprias responsabilidades, já me estimulava a firmar meus propósitos naquilo que achava estar correto.
Na atitude natural daqueles que procuram proteger e defender seus objetivos e diante do parecer contrário dos pais a respeito de seus interesses, o jovem pode replicar questionando: “Por que não?”. Certamente, uma simples resposta de “porque sim” ou “porque eu quero assim” já não mais será suficiente para convencer o filho. De outro modo, abrir mão da responsabilidade e das regras estabelecidas em casa, deixando o jovem viver segundo seu bel-prazer não deverá ser o caminho mais fácil para se evitar os conflitos.
Podemos enfrentar algumas dificuldades para assimilar as possíveis diferenças de opiniões e de comportamento de nossos filhos. Mas a constância nas observações das normas e a perseverança na vivência das virtudes não permitirão que os laços de amizade e de confiança da família se tornem infecundos. Assim, o
respeito mútuo será o sustentáculo que permitirá o diálogo, no qual, poderão encontrar - juntos - a melhor maneira para se equacionar possíveis impasses.Lembremos que aquilo que não foi semeado não poderá ser colhido, nem sob a condição de uma autoridade opressora.
Deus abençoe a todos que abraçaram essa missão.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Ele toda a honra e toda a glória!


"Eu não busco a Minha glória; há Quem a busque e julgue."
João 8.50 Almeida Revista e Corrigida (www.sbb.org.br)

Recentemente tivemos a oportunidade de acompanhar mais uma temporada de Olimpíadas. Os mais afortunados, presencialmente, e os demais acompanharam através dos noticiários. Cada temporada é mais cheia de esplendor do que a anterior. Os organizadores se superam!
Nas olimpíadas vemos momentos de alegria e tristeza, momentos de ansiedade e insegurança e momentos de convicção e grande confiança. Mas a grande pergunta que me ocorre a cada atleta que vejo subir no pódio é: "Pra quem é a medalha que ele acabou de conquistar?". Alguns dos que observamos é claro o objetivo, mas é difícil ter a idéia do verdadeiro propósito de todo aquele empenho. Enfim, a glória é para o país ou é para si próprio? Consegue dizer?
A vaidade seguramente é o espinho na carne do homem em minha opinião! O propósito inicial, de modo geral, realmente é um desejo de representar a nação, o país, mas à medida que crescem na carreira, que vêem seus nomes circulando pra todo lado na mídia, aquele "espinhozinho" começa a agir e o "eu" assume o lugar do país. Logicamente existem os atletas realmente comprometidos, mas há uma boa porcentagem que está ali para representar a si próprio. Consegue distinguir entre um e outro?
A Bíblia nos ensina que todo "bom" atleta em tudo se domina, Paulo quando disse isso pretendia fazer uma metáfora a respeito do cristão. Mas é em Cristo Jesus que vemos o exemplo completo de entrega e renuncia de Si. Jesus, no contexto do versículo acima, discutia com os judeus a respeito de Seu propósito e Ele ressalta veementemente que Ele estava ali para representar o Pai que não tinha a menor preocupação com a Sua própria glória, porque tinha a plena convicção que a Sua exaltação estava sujeito à vontade do Senhor Deus.
Quantas vezes agimos de forma a satisfazer a nós mesmos, ainda que o resultado seja apenas uns "tapinhas nas costas"? Freqüentemente estamos prontos para nos promover e esquecemos-nos dAquele que nos enviou, que nos colocou ali onde estamos. O que você faz, você o faz para si mesmo? "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (I Coríntios 10.31).
Hagton
www.umbet.org.br

"But I do not seek My own glory: there is He that seeks and judges" (John 8.50 Darby Translation)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Religião não se vende em prateleiras (Wagner Ferreira da Silva)

Abraçar uma religião é, segundo dados estatísticos da Pew Global Attitudes Project, mais importante para os países em desenvolvimento do que para as nações prósperas – do ponto de vista econômico. Mesmo assim, enquanto 59% dos norte-americanos crêem que a religião é importante em suas vidas, esse índice é bem menor na Alemanha (21%), França (12%) e Japão (11%).
O Brasil aparece como o segundo país na América Latina que mais cultiva a religiosidade, só perdendo para a Guatemala – 77% contra 80%, respectivamente. Espanta, também, que de cada três italianos apenas um se assuma católico, dado curioso diante da presença do Vaticano na Itália.
Uma rápida análise sociocultural aponta para o crescimento do secularismo. Trata-se de um fenômeno característico da chamada pós-modernidade, na qual a pessoa humana, desconfiada das seguranças científicas afirmadas pelo racionalismo moderno, busca respostas no mundo sobrenatural. Parece que Deus estava dormindo, mas não morto, como afirmavam alguns. Em função disso, contempla-se uma emergência espiritual, acompanhada, segundo alguns sociólogos da religião, do mercantilismo religioso: a religião considerada produto.
Neste mercado das crenças, compreende-se o trânsito religioso, uma vez que nem sempre essa ou aquela religião consegue atender às necessidades imediatas da pessoa. Nas prateleiras do mercado religioso, tudo o que for soft é bem-vindo, atrairá mais clientes. Caso o cliente não se satisfaça, basta mudar para outra religião. Sem cairmos na tentação de absolutizar o fenômeno, é como se a crença estivesse condicionada ao efeito rápido, como o de um medicamento.
Será que o desenvolvimento econômico, implicado também nas conquistas científicas das famosas mutações genéticas, tem conseguido transformar a religião em ópio do povo? Sem culpabilizarmos quem quer que seja, esse mercado religioso – que se vale do marketing do é pra já – tem se aproveitado da fragilidade de pessoas interessadas em buscar segurança em um mundo de rápidas mudanças.
Se antes a religião entrava na vida de uma pessoa pela fidelização cultural e familiar, hoje é por opção. Quantas pessoas se dizem católicas porque foram batizadas, mas não sabem o que é freqüentar a missa aos domingos ou mesmo recorrer a Deus através da oração? Alguns sequer entendem o significado da fé cristã. O que fazer, então?
A resposta para o catolicismo está na evangelização. Cada vez mais percebemos que, ao ser realmente evangelizado, o fiel apresenta uma impressionante qualidade de vida cristã, acompanhada do testemunho da fé. A partir do momento que ele entende Quem é o Caminho, a Verdade e a Vida, também a consciência sobre seu papel no tecido social é transformada.
O interesse da Igreja Católica, apesar do fenômeno secularista e da emergência daqueles que buscam na religião respostas imediatas para os problemas do cotidiano, é que todos alcancem a salvação em Cristo Jesus. Para isso, importante não é o número, não é entrar na competitividade do mercado religioso, mas formar na fé discípulos e missionários de Jesus. Afinal, Ele teve 12 apóstolos para levar Sua Palavra ao mundo todo.

domingo, 28 de setembro de 2008

Lembranças

"A vida do ser humano é dotada de alegrias, tristezas, lembranças e recordações, e momentos felizes que são sempre lembrados no convívio familiar. Num certo dia de faxina geral em casa, deparei com uma pequena caixa envernizada, um tanto antiga, com uma pequena fechadura, porém sem a devida chave; comecei a separar documentos amarelados pelo tempo, recortes de jornais, mensagens enviadas através de cartas, fotos, até cartões de lojas que não existem mais, enfim uma série de lembranças que um dia fizeram parte da minha vida; continuo guardando, talvez para mostrar para meus netos.
Porém, o que mais me impressionou foi uma aliança comum de ferro, um tanto escura pelo tempo. Separei para verificar melhor. Terminada a fase de recordações e lembranças que o tempo deixou, fui para a pia da cozinha, e, com um preparado, fui polindo aquela pequena aliança, a sujeira do tempo foi ficando na flanela e aos poucos ela foi se tornando muito bonita, e com um dizeres em sua volta – “dei ouro para o bem do Brasil – 1964”.
Fiquei surpreendido e logo lembrei-me dessa fase triste do nosso País. Eu, ainda jovem, com meus 15 anos, já havia feito algo, talvez inocente ou não, para o bem da Pátria; jovem e cheio de esperança, um dia na minha vida acreditei em seus governantes e políticos, porém, tive uma grande desilusão e, se não fosse com o meu trabalho, não teria constituído minha família e vivido dignamente.
Com a aliança na palma da mão, muitas lembranças passaram na minha memória. Tive muitas desilusões nesses 44 anos que se passaram. Vivemos num país corrupto, miserável, sem assistência médica, muitas CPIs que não deram em nada, escândalos e mais escândalos, lavagem de dinheiro, enfim, qual foi o valor desse sacrifício, não só meu, mas de milhares de brasileiros que deram sua pequena contribuição na esperança de um dia ver um país melhor e decente?"

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Turbulências e Desavenças (Joanna de Angelis)

“Inegavelmente esta é uma época de turbulências generalizadas ... O planeta sofre nas suas entranhas, adaptando suas placas tectônicas, eliminando magma, liberando forças telúricas, sofrendo o aquecimento global, padecendo o choque das correntes oceânicas e atmosféricas. Entretanto, esse fenômeno vem-se prolongando desde priscas eras, trabalhando em favor do ajustamento das suas condições de habitabilidade, em relação à sociedade feliz do futuro."
“De igual maneira, os mais diferentes segmentos que constituem a sociedade terrestre, na política, na religião, nas raças, na cultura, nas investigações científicas e nas escolas de pensamento, sofrem turbulências que predominam em toda a parte, gerando conflitos e propondo vivências, agressividade, insubordinação. Não há respeito pelos direitos humanos e a criatura tornou-se objeto de fácil manipulação, dependendo das circunstâncias e do preço que lhe são impostos. Os valores éticos em contestação, neste momento, cedem lugar à corrupção moral, econômica, social, como efeito dos desafios que tomam conta das mentes e dos sentimentos, no trânsito existencial!... É natural, portanto, que as criaturas - células da organização emocional - sejam as causas dos transtornos que se expandem nestes dias de turbulência emocional, moral e espiritual. Alcançados pelo ser humano, níveis antes inimagináveis de cultura, de ciência e de tecnologia, o processo de iluminação pessoal, no entanto, não chegou aos mesmos patamares, proporcionando, em conseqüência, o choque entre o conhecimento e a emoção, as comodidades pessoais de que desfrutam alguns e os seus sentimentos morais.
De um lado, o stress defluente da busca desenfreada do poder, na sua multiface; por outro, o tédio, a exaustão dos sentidos em razão do gozo exagerado, têm produzido as legiões de insatisfeitos, traumatizados uns e revoltados outros, que tombam nas turbulências responsáveis pelo estado lamentável em que se demoram, assim dando vazão aos inumeráveis conflitos de que se fazem portadores. Muita falta faz, na atualidade, a vivência dos ensinamentos cristãos, não obstante as incontáveis denominações religiosas que se derivam do pensamento inicial de Jesus, filhas, porém do orgulho, das dissensões, dos interesses subalternos de indivíduos e de grupos, ofuscando a claridade e a profundidade do amor ao próximo como a si mesmo, do perdão incondicional, que devem ser regras de saudável conduta, assim como o dever de cada qual melhorar-se incessantemente... Comenta-se a vida do Mestre e decanta-se a excelência da Sua Majestade, porém, com os lábios, tendo-O longe do coração, sem aplicação sincera dos Seus ensinamentos na conduta pessoal. Repontam, cruéis, como efeito, as turbulências e as desavenças, por nónadas, por caprichos infantis e enfermiços, ameaçando as estruturas da sociedade e as obras de dignificação humana. Aos afetos de um dia, porque logo passam, desde que são fixações apaixonadas e não sentimentos profundos, em mecanismos de transferência psicológicos dos conflitos em predomínio, concede-se tudo, enquanto que aos que se apresentam antipáticos ou não se submetem ao talante desses poderosos da mentira, considerados inimigos reais ou imaginários, nada se lhes oferece, porque parecem representar-lhes perigo iminente. As desavenças procedem dos atavismos inferiores, decorrentes do largo processo da evolução antropológica, das heranças da luta pela sobrevivência, da vitória dos espécimes mais fortes em relação aos menos resistentes... Igualmente, as animosidades ressumam de recordações inditosas de reencarnações transatas, que deixaram ressaibos de amargura no comportamento ou de conflitos de inferioridade que são preservados, gerando sentimentos inamistosos e perversas desavenças. A maledicência, por sua vez, a calúnia e a infâmia, igualmente trabalham fatores reativos que dão origem às desavenças, ao tempo em que as vitalizam e preservam por tempo indeterminado. Ao lado desses fenômenos da personalidade, nunca esquecer-se de que espíritos infelizes que se comprazem em criar situações perturbadoras, inimigos de ontem ou de hoje, estimulam os conflitos entre os indivíduos, inspiram-lhes suspeitas absurdas, fixam-lhes as idéias morbosas, estimulando as dissensões e a destruição da fraternidade em relação aos demais companheiros de jornada. Não têm sido poucas as calamidades terrestres que foram engendradas no mundo espiritual inferior, em face da sintonia dos seres humanos com essas mentes obsessivas, que se facultam o direito de infligir sofrimentos desordenadamente, até o momento em que as Divinas Leis convocam-nas ao renascimento no mundo físico em injunções penosas e aflitivas. Tem cuidado com as desavenças, não te tornando instrumento delas! Resguarda-te das informações infelizes e liberta-te das suspeitas injustificáveis que te levam a reagir, quando deverias agir com tolerância e compreensão fraternal. As pessoas são conforme conseguem, e de igual maneira como não tens podido domar as tuas más inclinações, também elas não se podem modificar de um para o outro dia. Racionaliza as ocorrências desagradáveis que te alcançam e não acumules mágoas, como quem coleciona tesouros valiosos, pois que os seus miasmas terminam por enfrentar-te em face das cargas tóxicas de que se fazem portadoras. Não receies competidores na tua órbita de realizações. Ninguém consegue anular valores autênticos, nem tomar nada de outrem, exceto o que lhe é devido, e apenas isso... Não sejas fator de turbulência, de perturbação, de desavenças na esfera de ação em que operas. Não censures o ausente responsável pelo teu mal-estar, gerando inquietação e desrespeito, dando lugar a comentários desairosos. Aproveita o desafio para vencer-te, para dulcificar-te, para seres feliz. Distende tua imensa ternura, desarmando-te de prevenções, e nada de mal te acontecerá. Turbulências dão lugar a desastres calamitosos e desavenças propiciam batalhas igualmente prejudiciais que se alongam por tempo indeterminado. Tenta compreender o teu irmão do qual tens cismas e concede-te a bondade para com ele, como o Senhor da Vida o faz em relação à tua condição de espírito em luta para tornar-se melhor. Quando te ressumem do inconsciente as vibrações geradoras de desavenças, ora e acalma-te, certo de que superarás a situação delicada. Discorda, quando se fizer preciso, mas não te desavenhas nunca. O escândalo é necessário, mas ai daquele que é o seu responsável - afirmou o Mestre incorruptível. Nada fica oculto - é a Lei Divina. Assim, os maus, os desonestos, os corruptos, os traidores, os infiéis, serão desnudados no momento próprio ao impacto da luz da Verdade. Quanto a ti, fomenta a paz, aconselha, orienta e permanece amigo de todos. As pessoas, todas elas, são necessárias, embora ninguém seja indispensável nem insubstituível, mas também não são inúteis. E, se por acaso, alguém se te apresenta na condição de inimigo, permanece tranqüilo, porque o conflito é dele, nunca, porém, tornando-te inimigo de quem quer que seja.”

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O tempo que resta (Flávio Viegas Amoreira)

Um filme ou livro que nos redimem do desencanto são chaves que carregamos sempre para confrontação com as sombras: lembro ter assistido O Tempo que resta, de François Ozon, por quatro vezes e em DVD ele se torna fita de cabeceira. Admiro a civilização francesa que trata do tema fundamental que o capitalismo e a futilidade tentam driblar: a morte. Uma trama simples, enredo conciso: fotógrafo no auge da beleza (franceses conseguem ser concomitantemente belos e profundos), ligado ao mundo fashion e gay Cult, descobre ter dois meses de vida: o mundo não desaba, ele se liga ao essencial que passava despercebido e se integra ao mais divino elemento natural: o oceano, o mar tão uterino, símbolo reflexo do infinito. Transponho o drama íntimo do personagem para o mundo em que vivemos: explosão demográfica em países miseráveis, a ausência descarada de medidas que evitem o apocalipse ambiental que bate à porta e a glamourização da estupidez com ares de pretensa sofisticação. Enquanto o planeta pede socorro, a China se americaniza implodindo milenar sabedoria com os excessos do luxo, a América está mais preocupada com torrar petróleo do que com efeito-estufa, enquanto no Brasil a burguesia emergente revive tardiamente hábitos caretíssimos: já que não lê ou pensa, diverte-se entre festas de debutantes ou degustação de vinho como escape substitutivo do seu vazio e decadência intelectual. Nunca me passou pela cabeça que jovens urbanos fossem se ligar em música sertaneja. A vida inteligente se fecha em guetos, a solidão cultural e espiritual serão fardos kármico para aqueles que ainda pensam, interagem cosmicamente e não seguem o rebanho em direção à manada do mercado e da artificialidade. Diante do inevitável desaparecimento pessoal ou coletivo, mais que nunca devemos agir, encantar o momento, vivenciar paraísos terrenos e fazer do cotidiano a utopicamente real poetização da existência. Uma das cenas mais fortes em O tempo que resta é a despedida entre protagonista e a avó espiritualmente sofisticada: Jeanne Moreau encarna todo ceticismo e resignação com uma sociedade tão desumanizada e convencional.
Inesquecível a célebre entrevista que essa admirável Jean Moreau fez com a já então centenária diva do cinema mudo Lilian Gish: perguntando à atriz americana qual melhor legado que deixaria para um filho ou a qualquer jovem querido, essa deu resposta antológica: “A melhor herança é curiosidade, interesse profundo”. Desanima ver que a leitura dos jornais tornou-se hábito para adultos, profissionais liberais sem nenhum conteúdo além de suas especialidades e uma geração que cresce despolitizada, sem compaixão social e inebriada pela ascensão material. Cultura é a libido da alma: enquanto fixados na superfície do besteirol, os alienados ou reacionários travestidos de descolados tornam-se impotentes diante das verdades eternas: viver como aprendizado ao desenlace, o desapego, a elevação através da arte como religião laica, a observação do espetáculo que o horizonte no crepúsculo apresenta como metáfora do adeus... Para um libertário confesso, desprovido de preconceitos, já que todo preconceito é burro, só ela mesma, a burrice ornada de falso brilhante, ainda incomoda. Assistir O tempo que resta me comove como ler Dostoievski fechando o belíssimo conto Noites Brancas: “Um minuto inteiro de felicidade! Mas não é o bastante para toda uma vida de um homem?”
Persisto retendo o instante, questionando o fugaz.
Apesar da descrença na redenção, existe reposição de estoque: ainda surgem anjos que iluminam o tempo que resta... esses que nos movem fazendo amanhecer por dentro.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Eu Sou assim...


"Coisa mais difícil é ser o que somos, obviamente porque para começo de conversa não sabemos o que somos. O que conhecemos do que somos normalmente é apenas uma soma de identificações que acumulamos sofregamente para ter o que possamos reconhecer. Um é carrancudo e diz para si mesmo que é assim que ele é, “sou o que sou”. Mas pesquisemos e quase sempre se verá esse aspecto como uma reação apenas. Um dia quando criança precisou ser carrancudo porque lhe parecia que sua sobrevivência dependia disto e assim continua usando uma resposta que um dia foi boa mas que agora muitas vezes não é útil mais, servindo apenas como uma identificação. E por aí com quaisquer traços que observo em mim. Todo traço teve sua história, eu sou apenas o conjunto desses traços? Eu (ego) sim, mas está claro que um não é apenas o ego que lhe aparece diante do espelho do olhar alheio. E coisa triste é quando um acha que é apenas suas identificações, sem perceber que há um espaço em si que lhe é desconhecido e que reserva formas de ser desconhecidas, desconhecidas, desconhecidas. E para se ir agregando o desconhecido e aumentando a consciência é preciso algumas coisas. Por exemplo, é preciso ter confiança que no fundo ser humano vale a pena. Se não confio nisso prefiro viver numa personalidade que é limitada mas pelo menos é adaptada, tem tido o sucesso que este mundo proclama como tal. Neste caso a busca pela honesta verdade do que se é não acontece de modo algum, pois o que é se torna o que foi inventado de saída! Então não somos seres interessados na verdade? Definitivamente não. O que interessa aos seres dessa espécie é a segurança, é o se sentir seguro, mesmo que precariamente, dolorosamente. O personagem Nietzche no livro “Quando Nietzche Chorou” fala a Breuer: “Atinge-se a verdade através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo seja de certa forma. O desejo de seu paciente de estar nas mãos de Deus não é a verdade. É simplesmente um desejo infantil, e nada mais! É um desejo de não morrer, um desejo do eterno mamilo intumescido que chamamos de Deus” Ernest Becker no maravilhoso livro “A Negação da Morte” cita José Ortega e Gasset: Examine as pessoas a seu redor e você… as ouvirá falar em termos precisos a respeito de si mesmas e de seu meio, o que poderia parecer indicar terem elas idéias sobre o assunto. Mas, ponha-se a analisar tais idéias e verificará que nem de longe refletem de alguma maneira a realidade à qual aparentemente se referem, e se você se aprofundar descobrirá que nem há sequer uma tentativa de ajustar essas idéias à realidade. Bem pelo contrário: por meio desses conceitos o indivíduo está tentando cortar qualquer possibilidade de visão pessoal da realidade, de sua própria vida. Pois a vida é no começo um caos no qual a pessoa se acha perdida. O indivíduo desconfia disto, porém tem medo de ver-se face a face com tão terrível realidade e procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo está claro. Não o preocupa se suas idéias são verdadeiras, pois ele as emprega como trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos para afugentar a realidade. Voltando a Nietzche (personagem do livro de Irvin Yalom): “Não é a verdade que é sagrada, mas a procura de nossa própria verdade! Uma de minhas sentenças de granito é: ‘torna-te quem tu és’! E como descobrir quem e o que se é sem a verdade?” E de volta a Ernest Becker: “Dizer que alguém é anal significa que está tentando, com exagero, proteger-se dos acidentes da vida e do perigo da morte, buscando empregar os símbolos da cultura como um meio seguro de triunfar sobre o mistério natural, procurando fazer-se passar por qualquer outra coisa que não um animal. (…) O que perturba na analidade é ela evidenciar que toda a cultura, todos os estilos de vida criativos do homem são, fundamentalmente, um protesto inventado contra a realidade natural, uma negação da verdade da condição humana e um esforço para esquecer a criatura patética que o homem é”.

Uou! Parece que é daí que um tem que começar quando quiser dizer com um mínimo de honestidade: é assim que eu sou!"