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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Eu Sou assim...


"Coisa mais difícil é ser o que somos, obviamente porque para começo de conversa não sabemos o que somos. O que conhecemos do que somos normalmente é apenas uma soma de identificações que acumulamos sofregamente para ter o que possamos reconhecer. Um é carrancudo e diz para si mesmo que é assim que ele é, “sou o que sou”. Mas pesquisemos e quase sempre se verá esse aspecto como uma reação apenas. Um dia quando criança precisou ser carrancudo porque lhe parecia que sua sobrevivência dependia disto e assim continua usando uma resposta que um dia foi boa mas que agora muitas vezes não é útil mais, servindo apenas como uma identificação. E por aí com quaisquer traços que observo em mim. Todo traço teve sua história, eu sou apenas o conjunto desses traços? Eu (ego) sim, mas está claro que um não é apenas o ego que lhe aparece diante do espelho do olhar alheio. E coisa triste é quando um acha que é apenas suas identificações, sem perceber que há um espaço em si que lhe é desconhecido e que reserva formas de ser desconhecidas, desconhecidas, desconhecidas. E para se ir agregando o desconhecido e aumentando a consciência é preciso algumas coisas. Por exemplo, é preciso ter confiança que no fundo ser humano vale a pena. Se não confio nisso prefiro viver numa personalidade que é limitada mas pelo menos é adaptada, tem tido o sucesso que este mundo proclama como tal. Neste caso a busca pela honesta verdade do que se é não acontece de modo algum, pois o que é se torna o que foi inventado de saída! Então não somos seres interessados na verdade? Definitivamente não. O que interessa aos seres dessa espécie é a segurança, é o se sentir seguro, mesmo que precariamente, dolorosamente. O personagem Nietzche no livro “Quando Nietzche Chorou” fala a Breuer: “Atinge-se a verdade através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo seja de certa forma. O desejo de seu paciente de estar nas mãos de Deus não é a verdade. É simplesmente um desejo infantil, e nada mais! É um desejo de não morrer, um desejo do eterno mamilo intumescido que chamamos de Deus” Ernest Becker no maravilhoso livro “A Negação da Morte” cita José Ortega e Gasset: Examine as pessoas a seu redor e você… as ouvirá falar em termos precisos a respeito de si mesmas e de seu meio, o que poderia parecer indicar terem elas idéias sobre o assunto. Mas, ponha-se a analisar tais idéias e verificará que nem de longe refletem de alguma maneira a realidade à qual aparentemente se referem, e se você se aprofundar descobrirá que nem há sequer uma tentativa de ajustar essas idéias à realidade. Bem pelo contrário: por meio desses conceitos o indivíduo está tentando cortar qualquer possibilidade de visão pessoal da realidade, de sua própria vida. Pois a vida é no começo um caos no qual a pessoa se acha perdida. O indivíduo desconfia disto, porém tem medo de ver-se face a face com tão terrível realidade e procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo está claro. Não o preocupa se suas idéias são verdadeiras, pois ele as emprega como trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos para afugentar a realidade. Voltando a Nietzche (personagem do livro de Irvin Yalom): “Não é a verdade que é sagrada, mas a procura de nossa própria verdade! Uma de minhas sentenças de granito é: ‘torna-te quem tu és’! E como descobrir quem e o que se é sem a verdade?” E de volta a Ernest Becker: “Dizer que alguém é anal significa que está tentando, com exagero, proteger-se dos acidentes da vida e do perigo da morte, buscando empregar os símbolos da cultura como um meio seguro de triunfar sobre o mistério natural, procurando fazer-se passar por qualquer outra coisa que não um animal. (…) O que perturba na analidade é ela evidenciar que toda a cultura, todos os estilos de vida criativos do homem são, fundamentalmente, um protesto inventado contra a realidade natural, uma negação da verdade da condição humana e um esforço para esquecer a criatura patética que o homem é”.

Uou! Parece que é daí que um tem que começar quando quiser dizer com um mínimo de honestidade: é assim que eu sou!"