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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O chato (Alcindo Gonçalves)


“Todo mundo conhece um chato. Melhor dizendo: conhece vários e vários chatos. A chatice é marca registrada da espécie humana e está presente em todos os lugares e classes sociais. Ninguém escapa de tropeçar diariamente em uma pessoa chata, que aborrece, cansa e irrita.
Há vários tipos de chato. O mais comum é o inconveniente, que não tem noção de local ou de momento. Insiste em chegar nas horas mais inapropriadas, não percebe que está atrapalhando, e fica, horas a fio, ocupando o seu precioso tempo. Chega de repente, não percebe o que você faz, muito menos a importância ou a urgência das suas tarefas atuais. Não tem o famoso “desconfiômetro” a que se refere a sabedoria popular.
Em geral o chato fala sem parar. Pior: ele é auto-centrado, e só sua conversa, idéias e histórias têm valor e interesse. Nunca ouve ninguém por muito tempo, interrompe o que você fala, não presta atenção em nada. Aluga os seus ouvidos, seja pessoalmente, seja pelo telefone. E em tempos de Internet, é aquele que adora enviar – e encher sua caixa postal – de mensagens inúteis e cretinas, repletas de arquivos gigantescos, com vídeos e Power Points tão coloridos quanto bobos.
O chato não tem graça alguma. Mas, sabe Deus por quê, acha-se o mais engraçado dos seres sobre a Terra. Conta piadas horríveis, histórias sem pé nem cabeça, mas compraz-se em rir muito, ao mesmo tempo em que se considera sempre o máximo, certo de que faz o maior sucesso possível.
O chato homem é um conquistador barato. Sua técnica de conquista é básica e repetitiva: canta todas as mulheres possíveis, com a lábia mais simplista e por vezes cafajeste. De novo, não se intimida nem se envergonha nas situações mais constrangedoras. Segue em frente, como se nada tivesse acontecido, pronto a repetir as técnicas mais deploráveis de sedução.
Há chatos na família, no trabalho, na escola. Consideram-se amigos e companheiros, prontos a dar um conselho salvador. Sempre têm a solução mágica, o caminho perfeito. Já viveram toda sorte de situação na vida, e sabem o remédio e a mandinga possíveis, sem pestanejar. Gostam de dar palpite na vida alheia, mesmo quando ninguém pede ou quer.
É verdade que não há um padrão único e completo de chatice. A bem da verdade, ela depende do referencial de cada um.Talvez quem reclame da chatice alheia seja ele próprio um chato rematado. E acusar os outros de chato é sempre fácil e conveniente para descartar quem pensa ou age diferente. Um bom exemplo disso é o caso dos chamados eco-chatos. Militantes na defesa intransigente do meio ambiente, incomodam e perturbam. Desclassificá-los sumariamente acaba por ser um jeito fácil de tentar anular a sua ação.
Mas, apesar de tudo, há, sim, muita gente chata, que nasce, cresce e morre assim. A sabedoria do maestro Gilberto Mendes, do alto de seus 85 anos, é certeira. Outro dia ouvi um comentário seu, perfeito. Não é correto dizer que os velhos ficam chatos com a idade. Na verdade, a chatice sempre existiu nessas pessoas: chato jovem, chato velho. Poupe-nos deles, Senhor.”