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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Motoqueiros


Rua movimentada. Trânsito parado em razão de um semáforo fechado. Vários carros enfileirados à espera da abertura do sinal. De repente, ouve-se uma buzina estridente à retaguarda. Não é possível identificar bem a origem. Pode ser uma ambulância aflita, ou alguém tentando chamar a atenção de algum conhecido?
Nada disso. O semáforo abre, os automóveis seguem. E eis que, súbito, surge uma moto a ultrapassar os veículos pela direita. O motoqueiro, colérico e enraivecido, grita, xinga, faz um gesto obsceno. O motorista, é claro, é a vítima, o responsável, o destinatário da fúria.
Num primeiro momento o motorista leva um susto. Fica sem ação, a pensar no que teria ele feito para provocar tal atitude. Às vezes, de fato, por distração, existe descuido ou imperícia no trânsito. Poderia ter sido este o caso? Analisando a situação acima: afinal, que poderia ter sido feito, o motorista cercado de carros por todos os lados, com um semáforo fechado à frente? Mover-se sobre a guia lateral, numa manobra que apenas se justificaria se atrás estivesse um carro de polícia ou ambulância?
Não, definitivamente, não há culpa alguma. É para concluir que o motoqueiro é um idiota, um cretino. Mas ele passa rápido e não existe tempo para revidar os xingamentos. Na verdade, talvez não se deve mesmo fazer isso: o tempo das disputas e ataques pertence ao faroeste, e não ao nosso civilizado século XXI.
Este fato não ocorre uma única vez, mas várias vezes. Quem dirige automóvel pode testemunhar a respeito, e contar histórias semelhantes, ou muito piores e mais graves. A princípio, vamos ser justos: não são só os motoqueiros que assim agem. Há motoristas de belos carros, inclusive do sexo feminino, que seguem pelas ruas e avenidas histéricos e agitados, a cortar, a costurar e a bradar contra os outros que os impedem de praticar toda sorte de absurdos.
Afinal de contas, o que se passa com as pessoas no trânsito das grandes cidades? Ao volante sentem-se poderosas e capazes de tudo. Exercitam seu poder, indiferentes às regras, aos outros. O estresse causado pelos congestionamentos agrava ainda mais a irritação diária. E o resultado é a agressividade constante, os palavrões e gestos como rotina nas vias públicas.
Convenhamos, porém, que os motoqueiros abusam mesmo. Não vou generalizar para evitar injustiças. Certamente há motos que, disciplinadas e ordeiras, respeitam as leis de trânsito. Seriam então os motoboys, aqueles que vivem de entregas rápidas, pressionados por horários e patrões, tendo que cumprir jornadas estafantes, os únicos responsáveis por esse quadro?
Não creio. O idiota que xinga na maioria das vezes não é um motoboy. Ao contrário, às vezes está sobre uma moto reluzente, de última geração. Mas sente-se o dono da rua, o dono do mundo. No banco de sua máquina, é o todo poderoso: nada pode ou deve detê-lo. O que fazer, então? Resignar-se esta horda de gente incivil, responsável por toda sorte de acidentes, nos quais eles acabam por ser tragicamente e parte mais frágil?
Eis aí um bom problema para nossas autoridades de trânsito, que precisa ser enfrentado. As motos são modernas, ótimas e práticas, e devem existir. Mas não à margem da lei, como muitas fazem hoje.
(Baseado em texto de Alcindo Gonçalves)

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