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domingo, 6 de dezembro de 2009

Depois da morte (Alcindo Gonçalves)


A morte é triste e trágica. Viver a doença e o agravamento das condições físicas de alguém próximo é difícil e doloroso. Pode-se dizer, como consolo, que é um processo normal e inevitável, do qual quase ninguém escapa. Mas não diminui o sofrimento nem torna a situação mais tranquila ou indiferente.
Até que um dia a morte chega. Para alguns, transcorre um longo tempo até o desenlace, passado entre dores, cuidados, hospitais, UTIs. Em outros casos, é mais rápido: em algumas situações até demais, quando a morte vem de modo súbito e inesperado.
Quem morre, descansa. Isso é repetido desde que o mundo é mundo, sendo talvez o jargão mais conhecido da história. O nosso ente querido está livre dos padecimentos e das agruras da vida, e segue em frente rumo à eternidade.
Mas para quem fica começa um longo calvário. Logo após a notícia, deve ser obtido o atestado de óbito com o médico, e, se a morte ocorreu num hospital, é preciso enfrentar a administração e a burocracia para os primeiros procedimentos. Em seguida, sempre pressionado pelo tempo (e pela emoção forte do momento), ir a um serviço funerário. Não importam os dias e horários – final de semana, madrugada – e lá estará alguém à sua espera, nem sempre com o melhor dos humores e delicadeza.
Outro ritual se inicia. Primeiro, conferir documentos – é claro que faltará algum, ou o atestado de óbito terá algum erro, exigindo que se volte ao médico ou hospital. Depois, será preciso fazer escolhas sobre os detalhes do funeral: flores, salas de velório, e o pior: visitar um show-room para a escolha do caixão que será utilizado.
O corpo será preparado – e algumas horas passarão – e você deverá estar ali, à espera, para conferir o trabalho realizado. Há ainda os preparativos no cemitério, que envolvem quase sempre a exumação do corpo de alguém da família, serviço que deve ser acompanhado pessoalmente (não sei que norma ou regulamento faz essa exigência).
Começa, então, o velório. Estamos cansados, esgotados, sofridos, mas temos que estar ali, firmes e fortes, para receber os cumprimentos e condolências, viver a despedida final e acompanhar o transporte do caixão e o enterro propriamente dito.
Mas o pós-morte não tem apenas esse dia (e noite) difícil. Passado o impacto, começa o drama do inventário se o falecido deixou bens. Não importa que seja um pequeno apartamento, um carro velho, ou uma diminuta conta bancária. Há prazo legal para que isso seja feito, e a via-crucis em busca de documentos vai tomar seu tempo e suas energias por algumas semanas.
São necessárias novas certidões de casamento e nascimento de herdeiros (que custam caro, é claro), várias cópias xerox autenticadas. Você deverá ter um advogado, mesmo que o processo seja feito num cartório (de maneira mais simplificada, diz-se). E gastos, trabalhos, tempo que deverá ser perdido. Paga-se o imposto (4% sobre tudo que compõe a herança). Em suma: a despesa final vai passar, fácil de 10% de tudo o que vier. E se voe não tiver o dinheiro na hora?
Se há um carro envolvido e você pretende simplesmente vendê-lo (o que a maioria deve fazer), prepare-se para o pior. Além de aguardar a conclusão do inventário, você deverá transferir o documento para o nome dos herdeiros, um procedimento que exige agora a “vistoria obrigatória”, mais o trabalho do despachante. Mais R$ 300,00 de gastos, para ser dono do carro às vezes por algumas horas e transferi-lo imediatamente.
Em suma: tudo complicado. Não está mais do que na hora da sociedade e do Estado simplificarem tudo isso, e reduzir os gastos e trabalhos de todos nós?

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