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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Vir a Ser

A maioria das pessoas, nas grandes cidades do mundo, chegam em casa e tiram o paletó ou casaco, os sapatos, as meias. Este exercício já as deixam exaustas. Não possuem mais a vivacidade e nem mesmo a vontade que tinham há anos atrás.
Sentam-se para comer. Os pratos postos à mesa denunciam o que são: fritas, gorduras, álcool, condimentos. Não gostam de comida diet ou light. Gostam de comida "fight". Gostam de tudo que dizem fazer mal, mas que sem dúvida nenhuma é muito mais saborosa.
Ganham barriga, falta de cabelos e os poucos que restam, esbranquiçados, que agora são reais, ontem já não eram.
Os cardiologista, aconselham que mudem seus hábitos. Dizem que não podem fumar, não podem beber, deveriam fazer exercícios físicos diários. E mesmo que sejam proibidas, não cessam com o cigarro, com o uísque e não fazem um único exercício.
Nietzsche, em seu livro "Obras incompletas" tem um texto capitulado "A filosofia na época trágica dos gregos". Neste trecho ele comenta a visão de Heráclito de Éfeso sobre o problema do vir-a-ser de Anaximandro, filósofo grego pré-socrático. "O eterno e único vir-a-ser, a total inconsistência de todo o efetivo, que inconstantemente apenas faz efeito e vem a ser mas não é, assim como Heráclito o ensina, é uma representação terrível e atordoante, e em sua influência aparenta-se muito de perto com a sensação de alguém, em um terremoto, ao perder a confiança na terra firme..."
Quero chegar com as palavras floreadas de Nietzsche a uma degradação biológica constante que existe a cada milésimo de segundo que se passa no universo. Se o leitor chegou a conclusão de que fiquei louco, tenho a leve impressão de que está absolutamente correto. Mas posso me explicar.
Vamos supor que a expectativa de vida de uma pessoa seja de dois mil anos. Poderíamos muito bem ficar lendo esta crônica durante dois dias seguidos, sem pausa pro cafezinho. O que são dois dias comparados a dois mil anos. Alguns minutos. Mas a vida humana vive apenas oitenta anos em média. O que quer dizer que a cada milésimo de segundo a degradação biológica vai enfatizando-se até completar seu estado completo, ou seja, a morte. Mas nem após a morte essa degradação se completa. Augusto dos Anjos não nos deixa enganar. "Já o verme, este operário das ruínas, que o sangue podre das carnificinas come e a vida em geral declara guerra". Assim que somos concebidos caminhamos eternamente para a morte, e boa parte de pessoas ainda contribuem para essa maldita degradação com seu cigarrinho e suas bebidinhas. Além daquela maravilhosa carne mal passada, devidamente acompanhada da gordurinha. Aposto que muitas pessoas chegam a babar no teclado ao ler essas palavras. Como Nietzsche dizia, o "vir-a-ser" é eterno e único. Estamos sempre vindo a ser alguma coisa. Mas nunca seremos nada, pois a cada milésimo de segundo nos tornamos outro. Nossas células vão morrendo e se multiplicando ciclicamente. Acho que Nietzsche devia titular seu texto como "A degradação na época trágica do tempo".
(Baseado em texto de Tiago Xavier dos Santos)

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