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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Outras lições de Isabella

“A opinião pública foi abalada nos últimos meses, com fatos que nos fizeram defrontar com violências absurdas em famílias de classe média. São crimes terríveis que teriam sido praticados por pais contra filhas, no caso brasileiro provavelmente colaborando com as próprias mãos para o seu assassinato, no caso austríaco destruindo a filha física e psicologicamente com calabouços, abusos, tortura. As matérias jornalísticas se multiplicaram, nesses casos, numa cobertura diária e espetacular, mas a verdade é que a humanidade sempre deu grandes espaços para violências de todos os tipos não só em jornais, mas na produção literária, cinematográfica, televisiva, nas conversas.
Pelo que se observa, o impacto desses crimes frente ao público, na ficção ou no jornalismo, depende da ampla caracterização dos suspeitos como verdadeiros monstros e dos demais como autênticas vítimas, além de fomentar ilimitadas curiosidades em torno das histórias e personagens, e no caso dos crimes atuais não foi diferente. Produziu-se um mundo repartido em pessoas pacíficas e boas, de um lado, violentas e ruins, do outro, o que, se não possui correspondência com a realidade, pelo menos serve para inocentar todos que não somos diretamente autores dos crimes. O que poucos conseguem perceber é que é justamente tal visão, que considera a violência externa, localizada e personalizada, que nos torna parte integrante e fundamental nos crimes.
Como poderão os parentes, os vizinhos, as sociedades não serem coniventes com os crimes se são tantos os sinais e atitudes apresentados por essas famílias, por anos a fio? Seremos realmente uma sociedade pacífica, atenciosa e protetiva como queremos crer ou teremos também características de negligência, omissão e violência?
Qualquer profissional da área social sabe que uma mulher, uma criança, uma vítima de violência apresentam inúmeros e claros sintomas da situação que sofrem, sinais que, via de regra, são sumariamente negligenciados por família, parentes, vizinhos, escola, sistema de saúde, e nos mais variados ambientes que as pessoas freqüentam. Machucados reincidentes,mudanças repentinas de comportamento, choro e hipersensibilidade, agressividade, tom de voz alterado, desenhos escuros e angustiados, postura corporal pesada, visões de mundo distorcidas, faltas e desorganizações desfilam em nossa frente todos os dias sem lhes darmos a mínima atenção. Além disso, sabe-se que a quase totalidade dos agressores de hoje são os agredidos de ontem que a sociedade simplesmente não foi capaz de acolher, educar e tratar.
Nem sequer perceber. O que essas enormes tragédias nos mostram é que nós não nos olhamos nos olhos. Nossa sociedade é individualista, competitiva,muitas vezes omissa, e isso é, sim, parte importante dos crimes, pois nos tem tornado incapazes de distinguir e atuar sobre essa violência que depois nos escandaliza. Se não somos diretamente a mão criminosa, somos o ambiente que viabiliza o crime, pois temos nos mostrado reincidentemente incapazes de perceber absurdos terríveis que ocorrem sob nossos narizes.
Por mais cômoda que seja, é preciso abolir essa postura escandalizada contra os criminosos pois, se fomos surpreendidos por esses crimes agora é porque, como coletividade,fomos omissos antes. Os criminosos são a infeliz expressão de uma cultura, de uma sociedade omissa os quais precisarão, sim, ser apartados, tratados e punidos como nosso sintoma mais gritante, mas, definitivamente, não são a doença em si. Somos todos responsáveis, e podemos mudar essa situação.
A maior homenagem a Isabella e a todas as outras vítimas que tanto nos emocionam não é xingar o pai e a madrasta, nos revoltar contra o avô paterno, ansiar pela condenação máxima de todos. O maior culto que se pode fazer a uma vítima é perceber que a violência doméstica está fundamente alicerçada em nossa forma de agir,nas relações existentes em nossa sociedade e dedicarmo-nos, em todos os ambientes, a um processo de humanização das relações sociais de forma a nos tornar capazes de perceber e acolher as violências assim que surjam. Só mesmo percebendo as raízes do mal para cortar o mal pela raiz.”

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